Não é não: as histórias de assédio em Carangola

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Quatro meninas contaram o assédio que sofreram. Infelizmente, elas não foram as únicas a passarem por essa situação

Patrícia* foi alisada no corpo todo (inclusive nas partes íntimas) aos 13 anos pelo vizinho que tinha idade para ser avô dela. Laura* sofreu uma tentativa de assédio de um cara que estava com a esposa numa festa, no Tênis. A carangolense Nathália* e a curitibana Eduarda* foram agarradas e beijadas à força por caras completamente estranhos no Carnaval do Rio de Janeiro.

Quatro mulheres e uma mesma história que se repete há séculos: o assédio com as meninas, o mesmo contra o qual estão lutando as atrizes e cantoras de Hollywood nas premiações, “Time’s Up” (nome que deram ao protesto contra o assédio às mulheres dentro da indústria cinematográfica e fonográfica dos Estados Unidos). O termo significa em português “o tempo acabou”. Essa é a hora de não se calar e ir à luta por uma vida sem ouvir um sussurro de “gostosa” toda vez que passa na rua, ou poder ir a uma festa na cidade sem um cara passar a mão ou ainda simplesmente se sentir livre para poder voltar para casa sozinha, à noite, sem se sentir amedrontada.

NÃO É NÃO

A maioria das meninas menores de idade que sofrem esse tipo de abuso não sabe como reagir. Muitas se calam e vivem com as cicatrizes do assédio sem nem mesmo os pais se darem conta. Ainda bem que esse não foi o caso da Patrícia*. A intimidade com a filha ajudou a mãe a perceber que algo de errado havia acontecido. A garotinha de 13 anos, ainda em choque com o que acabara de acontecer, contou tudo para a mãe. Ninguém foi processado para evitar que a fofoca percorresse a cidade e expusesse uma menina que havia acabado de sair da infância. Mas vale lembrar que pedofilia é crime! Faça a denúncia para evitar que outras garotas sejam abusadas. A culpa nunca é da vítima.

Nathália*, mesmo já tendo 22 anos na época, não soube se defender quando foi beijada à força, em pleno Carnaval, por um garoto que nem sequer vira o rosto. Ela não teve a chance de dizer “não”. Tentou empurrá-lo em vão, deixou a cerveja cair com o nervosismo e fechou a boca para não corresponder ao beijo. As amigas nem sequer perceberam a agressão.

Laura* e Eduarda*, de 27 e 31 anos respectivamente, reagiram. Os caras perderam o controle da situação e colocaram o rabinho entre as pernas. Laura* segurou o braço do homem assim que ele tirou a mão da esposa dele e tentou passar nela. Intimidado, ele fingiu que nada tivesse acontecido e ela pôde ir embora sem mais constrangimentos. Eduarda* respondeu quase que na mesma moeda. Ele a agrediu segurando fortemente o braço dela para a obrigar a beijá-lo e ela deu um soco para se desvencilhar dele. Ele quis chamar a polícia. Ela topou, afinal, havia sofrido uma violência antes de revidar. Ela apenas se defendeu de alguém que era bem mais forte do que ela. Vendo a reação confiante da Eduarda*, o cara desistiu e foi seguir o bloco de rua – provavelmente, agredindo mais outras tantas mulheres.

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ESTATÍSTICAS

A cada hora, 503 mulheres são vítimas de violência (física, verbal ou psicológica) no Brasil. Os dados foram coletados em 2016 pelo Instituto Datafolha e afirma que dois terços da população já presenciaram algumas dessas agressões. Se você pensa que esses números são alarmantes, respire fundo para ler os próximos.

Assim como aconteceu com a Patrícia*  –  não só ela como a família inteira confiava no vizinho que a molestou enquanto aceitava uma carona voltando da escola – 61% das entrevistadas pela pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública conheciam a pessoa que as agrediram e 43% das situações ocorreram dentro da própria casa da vítima.

Para denunciar, ligue 180.

ALERTA PARA OS GAROTOS

Garotos, caso não saibam, toda vez que vocês tomam qualquer uma das atitudes acima, nós criamos um medo de vocês. Sim, você que pensa que é um cara do bem, de classe média e popular na cidade, também é o mesmo cara de quem nós desviamos o olhar na rua com receio de que faça alguma coisa enquanto estivermos sozinhas. Ser mais velho ou conhecido em toda a região, não te dá o direito de passar mão ou forçar um beijo.

Então, meninos, comportem-se como homens e respeitem as mulheres – não só neste Carnaval como durante todo o ano. Não é não! A sarrada pode até ser boa, mas tem que ser consentida.

*Os nomes foram trocados para manter a privacidade e segurança das entrevistadas.

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