Preconceito: os desafios dos homossexuais em Carangola

Publicado por

No último paredão do BBB 18, o apresentador Tiago Leifert afirmou que “representatividade não existe aqui fora”. Enquanto isso, várias “minorias” vivem aguardando que seus representantes sejam vistos e divulgados nas grandes mídias

Em 2016, Luana Barbosa dos Reis morreu ao ser agredida de forma brutal por aproximadamente seis policiais na rua onde morava, em Ribeirão Preto (SP).  Luana tinha 34 anos, era negra, pobre e lésbica. Em março de 2017, a travesti Dandara dos Santos foi covardemente torturada e morta em Fortaleza (CE). O caso gerou revolta após o vídeo das agressões se tornarem públicos.

Esses casos não estão isolados. Não precisamos ir tão longe para enxergar o preconceito transvestido de brincadeira. Comentários homofóbicos, racistas ou transfóbicos constantemente estiveram presentes em conversas entre amigos.

O carangolense Hyago Moura*, de 28 anos, acredita que os adolescentes de hoje em dia têm um apoio maior para se compreenderem e serem aceitos. Basta ligar a TV ou entrar nas redes sociais para toparem com representantes da sua sexualidade. “A situação mudou agora, e pra melhor, já que atualmente as representatividades de minoria são muito mais presentes, por isso que é tão importante um Pabblo Vittar ou um beijo gay na novela, porque isso dá força pro jovem perceber que ele não está sozinho ou que ele não é uma aberração”, acredita. No entanto, há dez anos, as coisas não eram tão simples para ele.

Enquanto muitos negros que sofrem preconceito na escola chegam em casa e conseguem se abrir para os pais, o ex-estudante de moda não sentia o mesmo ao dar 12h10 na Regina Pacis. “É muito diferente a criança/jovem que se entende como gay porque na maioria esmagadora das vezes não existe um diálogo ou cumplicidade pra contar essa situação delicada pros pais (que muitas vezes também seriam agressores homofóbicos).”

A carangolense Juliana Garcia, de 25 anos, viu no sogro o agressor que foi tudo contra o qual ela lutou. De nada adiantou lutar a favor do amor. Aos 15 anos, o pai de sua namorada fez de tudo para que elas se afastassem. Trocar a filha de escola e tirar o celular dela foram só o começo. “Um tempo depois fui a um aniversário de 15 anos na cidade dela. Sabia que ela estaria lá. No meio da festa, o pai dela me viu de longe, levantou de onde estava. Eu caminhava em direção ao banheiro, ele me puxou pelo braço e me deu um chute na barriga. Ele era muito maior do que eu! Me fez cair no chão. Quando fui levantar, ele me deu um soco no rosto e eu apaguei. Algumas pessoas me levaram pra fora da festa, chamei a polícia, fomos pra delegacia.” A influência dele na sociedade fez com que tudo fosse em vão. Se ele sofreu alguma penalidade? O que você acha?

Quase 10 anos depois, a cicatriz da violência é marca na vida da jornalista.  Segundo ela, para prestar depoimento, o pai de sua parceira foi à delegacia em seu próprio carro, já ela foi na viatura. “Não houve corpo delito, ele somente assinou a um termo e foi liberado”, ressalta a vítima.

Tudo isso só piora para os homossexuais que são mais afeminados ou mais masculinas. “A percepção dessa homofobia ligada à classe social também é algo que eu vivo. Tenho uma transição boa com todas as esferas e vários homens héteros chegam até mim e criam vínculos até, mas isso não acontece com alguns gays mais efeminados ou periféricos. Ouso afirmar que a classe social bate mais forte do que o nível de ‘efeminado’”, analisa Hyago.

Poderia ser o seu filho ou de qualquer outra pessoa. O fato de ser filho de um desconhecido não te dá o direito de faltar ao respeito e muito menos de agredir fisicamente. Lembre-se: agressão é crime. E nos dias de hoje, essa violência não passará em branco.

“Você cresce, sai da cidade pequena, tem várias vivências e vai mudando a sua visão. Vai pensando: ‘por que eu não pensava assim naquela época?’. E mesmo quando você retorna pra sua cidade (Carangola, no caso, superpequena e caretíssima) está mais seguro de si. A minha percepção real de Carangola é que a homofobia anda lado a lado com o preconceito social”, afirma Hiago. Hoje, assumidamente gay e morador de Carangola.

 

*Os nomes foram trocados para não comprometer a segurança dos entrevistados

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s