O pai que existe em cada um de nós

Publicado por

Crônica nunca foi o gênero jornalístico por  que tive muita aptidão, é necessário deixar fluir e ter muita inspiração. Colocar a alma nas palavras é uma tarefa muito difícil,  mas vou me ousar a ser um pouco poético

Me recordo da primeira vez que vi meu pai com olhos lacrimejando. Fui fazer faculdade no Espírito Santo, mais especificamente em Rive, um pequeno distrito de Alegre. Na época eu estava confuso e perdido quanto a tudo. Fiquei em um lugar que mais me parecia uma garagem do que uma casa. Meu pai ao se despedir de mim, chorou. Me lembro da música que tocava quando eu saia do carro, pode parecer cômico. Eu e meu pai nunca fomos apreciadores de música sertaneja. Mas a música “No Dia Que Eu Saí de Casa” da dupla Zezé di Camargo e Luciano (in)felizmente marcou o momento, e até hoje tem um simbolismo muito grande em nossas vidas. Eu tentei segurar minha emoção, mas não consegui. Era a primeira vez que sentia um laço forte se consolidando entre nós.

Ah, sair de casa, como é uma tarefa complicada. Se você não teve que dividir quarto, que sorte a sua. Você não sabe o quão é des(prazeroso) ter que compartilhar o mesmo cômodo com mais duas ou três pessoas. É blusa espalhada de um  lado, cueca de outro, naquele momento ecoava em minha cabeça as falas de meu pai: “vai arrumar seu quarto, quero ver quando for morar sozinho, vai aprender na marra”. Mas não é tão ruim assim. Aprender a compartilhar é um ganho quando se mora com mais pessoas. Todo aquele desejo de mudança (em querer sair de casa),  vai se tornando em um estresse essencial  para o seu amadurecimento como indivíduo. Bem, ao menos foi assim no meu caso e com todos aqueles oito caras que dividiram casa comigo. A figura paterna era nítida em cada um daqueles meus amigos. Tinha o mais mimado, o mais revoltado, o mais tímido, o mais engraçado e, no meu caso, o mais chato.

Mas tinha uma coisa que nos unia, nós eramos como uma família. Engraçado, sempre escorávamos nisso para justificar nossa saudade. Sim, de fato a República Kaxeta era uma segunda família, estávamos todos no mesmo barco. Assim como milhares de jovens que deixam sua casa para estudar, esses  amigos se tornam parte de nossas vidas. Cada um nesse momento se vê como o pai do outro, e nessas horas percebia quantos pais existem dentro de nós.  Dentro de cada amigo eu via uma figura paterna. Uma coisa é inegável, todos dentro de suas peculiaridades apresentavam o amor, a compaixão e o respeito, que são reflexos de nossa criação.

983827_714241048654428_1092434408193780377_n

Passamos por alguns momentos difíceis. Mas nessa hora surgia o pai solidário e éramos obrigados a pedir licença ao nosso egoísmo. Ajudar ao próximo sempre fortaleceu esses laços. Nós entendiamos o esforço de cada família para manter seus filhos estudando, e mais que isso, trazíamos esses ensinamentos para dentro de casa e compartilhávamos. A maioria dos estudantes que sai de casa para fazer uma graduação vai entender sobre o que estou falando.  Com o tempo, as roupas já não estavam espalhadas, as louças começavam a ficar limpas, a casa, não era lá  um brinco, mas toda semana fazíamos faxina. Hoje entendo que os pais dos meus amigos ajudaram na construção da personalidade de vários outros filhos, pois convivendo com cada um deles construí traços de minha personalidade, dentro das limitações. E assim, cada um de nós apresenta um pai dentro de si. A convivência social faz isso. Sair de casa engrandece a alma e faz com que amadureçamos.

Atualmente tenho com meu pai uma relação de cuidado e muito amor. O professor Ronaldo, como é conhecido, não é somente aquele brincalhão. Ele tem uma família, seus estresses, suas frustrações. Mas, além de tudo, tem um coração, e esse é puro sentimento e adrenalina. Cuida de seus filhos com toda sua força. Esperamos um dia retribuir todo esse cuidado, e obrigado por me ensinar a viver, mesmo que pra isso tivesse que abrir mão de mim e me deixar partir.

resumo-autores-pedro-ewers-folha-da-terra-carangola

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s