100 anos do TG: nossos heróis não foram esquecidos

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Nossos heróis de guerra carangolenses ainda estão vivos em nossas memórias e na história da cidade

Era maio de 1945 quando o soldado Wellington Lacerda, na época com 20, 21 anos, mandou notícias de terras europeias para a família. A 2ª Guerra Mundial tinha chegado ao fim. “Nosso primeiro ato foi socorrer os militares alemães que se encontravam feridos, doentes, etc, em virtude de não possuírem hospitais de campanha. Foi um gesto de humanidade e grande respeito àqueles que estavam lutando por seus ideais, por suas pátrias, apesar de serem nossos inimigos”, escreveu o carangolense, guardando na memória (e na gaveta da mãe) todas as histórias que vivenciou nas batalhas que se uniu aos Aliados (EUA, União Soviética, Reino Unido e China). As várias cartas que escreveu para a família matavam um pouquinho da saudade, suavizava a pressão das lutas e deixavam a matriarca dos Lacerdas respirar aliviada.

Desde pequeno que Wilson Lacerda, 55, ouviu boa parte dessas histórias narradas por um dos escritores desse “livro”, o pai dele. Ele repassa todas essas lembranças com o carinho de quem tem orgulho daquilo que o pai fez parte. Afinal, essas vitórias foram divididas nos almoços de domingo ou até numa roda de viola, que o senhor Wellington tanto gostava. Infelizmente, poucos dos nossos 33 sobreviventes carangolenses ainda estão por aí para contar a história que foi feita com a assinatura deles. A guerra foi dura, mas a vitória foi merecida. De presente, eles ganharam não apenas medalhas, congratulações, homenagens e diplomas. Eles conquistaram a volta para casa.

“Para nós que estávamos longe da pátria, de nossos familiares, foi, sem dúvida, o dia mais feliz com o término da guerra. Vivos, tínhamos certeza de retornar ao nosso país com nossa missão cumprida”, Wellington

Os brasileiros desembarcaram na Itália em 1944 para reforçar o lado dos Aliados, que já ganhava um bom espaço naquela área. “Ele era do grupo de informações, observações e comunicação do 11º Regimento de Infantaria de São João Del Rey, da Força Expedicionária Brasileira (FEB), então eles iam na frente fazer a posição dos ataques para passar para a artilharia. Infiltravam para ver quantos homens tinham, tiravam fotos e tudo para levar até o outro grupo que iria guerrear”, relata Wilson. Um dos grandes feitos desse batalhão foi a Batalha de Montese, uma das lutas mais sangrentas que tiveram, com mais de 200 soldados brasileiros mortos, mas com vitória verde e amarela.

Os mortos em combate foram enterrados em cemitério brasileiro e militar de Pistoia, na Itália. Os que conseguiram voltar para os braços de suas famílias retornaram com sequelas. “Homem de Carangola não teve nenhum ferido, mas tem um cara de Espera Feliz que ficou cego de um olho. Ele já veio da Itália com a vista perdida. Ele era estudante de medicina na época, aí foi pro corpo de enfermagem socorrer alguém em combate quando foi atingido pelo estilhaço de granada”, conta Wilson. Nem todos voltaram com lesões físicas, muitos guardaram até o fim de suas vidas o terror psicológico de enfrentar uma guerra cara a cara.

“Todos eles voltaram traumatizados. Tocaram a vida do jeito que dava”, Wilson

Antes de embarcarem de volta à costa brasileira, alguns soldados tiveram a chance de conhecer a beleza do Velho Mundo sem o perigo das granadas e metralhadoras. “O pai foi no 2° escalão e voltou no último. Esteve pela Europa durante, mais ou menos, um ano. Tem uma carta que ele reclama porque queria vir embora, mas não havia sido liberado. Quando terminou a guerra, ficou um escalão lá para fazer patrulhamento e o pai ficou nesse escalão. Foi nessa época que eles aproveitaram para conhecer esses lugares. Foram perto da Áustria, entre outros locais”, explica Wilson.

Este ano o Tiro de Guerra (TG) de Carangola completou um século com homenagens na 69ª Exposição Agropecuária e com o lançamento do selo comemorativo da instituição. Nessa época, lembramos dos nossos heróis, do maior feito do TG. Graças aos 33 homens que vestiram o uniforme e foram lutar pela sua pátria que hoje temos motivos para celebrar a nossa história. Nunca se esqueçam: “só estamos aqui porque eles estiveram lá”.

CURIOSIDADES

  • Sabia que o TG de Carangola foi o segundo de Minas Gerais a ser criado? Além disso, Carangola foi a cidade que mais levou homens para a 2ª Guerra aqui na região. Levou mais do que municípios maiores, como Muriaé e Manhumirim
  • “Foi acordado entre os líderes dos Aliados e do Eixo (Itália, Alemanha e Japão) que determinados pontos turísticos dos países que estavam participando da guerra não poderiam ser afetados, como por exemplo a Torre de Pisa, o Vaticano, a Torre Eiffel… Esses pontos estratégicos foram preservados”, Wilson
  • O acervo pessoal do Wilson contém mais de 500 imagens, medalhas, cartas, notícias de jornal, entre outros itens relevantes sobre a participação da FEB na guerra. Até fotos de espionagem dos soldados brasileiros é possível ver nesses conteúdos que ele disponibilizou para a Folha da terra e que já foram expostas no TG de Viçosa em comemoração ao nosso grande feito

Fotos: acervo pessoal do Wilson Lacerda

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