World Afro Day: as meninas que assumiram suas raízes

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Ainda tem muito preconceito com o cabelo afro, mas a autoestima das cacheadas tem revolucionado o padrão da moda

“Grito bem alto, sim, qual foi o idiota que concluiu que meu cabelo é ruim?
Qual foi o otário equivocado que decidiu estar errado o meu cabelo enrolado?
Ruim pra quê, ruim pra quem?
Infeliz do povo que não sabe de onde vem”, Elisa Lucinda

As palavras da poetisa Elisa Lucinda compõem o álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, do Emicida, e traduzem as indagações (muitas vezes internas) das pessoas que assumem o cabelo afro. É aquele preconceito velado, do jeitinho que os brasileiros gostam, que é vomitado diariamente. “Arruma o seu cabelo!”, “por que não prende ele?”, “você fica mais arrumadinha de cabelo liso”… Esses e muitos outros comentários preconceituosos travestidos de simples opiniões são ouvidos durante toda a vida por quem teve autoestima para lutar contra os padrões de beleza impostos pela sociedade e resolveu jogar fora a chapinha para assumir de vez a crespura.

Hoje (15), se comemora a revolução dos cachos. É o Dia Mundial do Afro e algumas pesquisas foram feitas pelo Perception Institute para alertar as pessoas. A conclusão foi que muitas mulheres se sentem deixadas de lado pela sociedade quando decidem abraçar sua herança afro. Sabia que só 27% das mulheres negras se sentem bem usando dreads em eventos profissionais? A engenheira Jéssica Ewers, 26, não faz parte desses 27%, mas acabou sendo surpreendida por um comentário do colega de trabalho ao chegar na copa da empresa com o novo penteado com dreads.

“Quando dei bom-dia, o cara que trabalha na área financeira do meu trabalho olhou pro meu cabelo e falou pra mim: ‘tá trabalhando lá em casa, é?’ Eu fingi que não entendi e falei: ‘como assim? Desculpa, mas não entendi’. Aí ele disse: ‘você tá trabalhando na minha casa? Pra tá com esse cabelo aí só pode tá trabalhando lá em casa’. Ou seja, ele deu a entender que eu estava com cabelo de empregada doméstica”, Jéssica

O pessoal da área dela adorou os dreads, mas teve quem achasse ok apontar para Jéssica e diminuí-la só porque ela resolveu aderir a um penteado da cultura afro. Essa não foi a primeira vez que a engenheira sofreu preconceito por causa de seu cabelo. Essas questões a acompanham há muitos anos, por isso alisou durante tanto tempo que chegou a esquecer como seus fios eram sem tanto produto alisador nele. “Sempre tive curiosidade em saber como meu cabelo real estava por trás de litros de alisante. Uma pessoa muito importante na minha vida foi como a gota d’água pra eu decidir enfrentar a transição”, conta ela, que hoje voltou a botar os cabelos enrolados para jogo.

AUTOESTIMA É TUDO!

A carangolense Larha Marinho, 23, sempre teve por perto quem a elogiasse pelo cabelo natural. Acredite, isso a ajudou a ter uma autoestima diferente da de muitas cacheadas por aí. “Sempre me aceitei. Na última vez que alisei, muitas pessoas diziam que preferiam cacheado, que liso não combina comigo. Daí pra cá não alisei mais”, diz Larha. Embora ame o que a natureza a deu, ela já caiu na rede do padrão de beleza.

“Na época era moda fazer progressiva, aí fiz porque queria mudar”, Larha

Por incrível que pareça, essa moda ainda não passou. Segundo a pesquisa do Perception Institute, 78% das pessoas, institivamente, preferem cabelos lisos. Num país tão mestiço quanto o nosso, não é só o bronze do verão que deveria ser aplaudido o ano inteiro, a beleza da mistura de raças também é algo que deveria ser celebrado. Hoje, cabelo black, volumoso e definido é sinônimo de estilo. É… Está em alta ser você mesma. Pelo menos enquanto você estiver na balada. No trabalho, sabe como é, né? “Vá arrumadinha”.

 

Fotos: World Afro Day e reprodução/Instagram

 

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