Dia das crianças: no espectro de uma criança autista

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Atypical, da Netflix, é a série que tem nos apresentado o mundo dentro do espectro. O seriado, para muitos, foi o primeiro passo pra entender como funciona a mente de um autista, mas o mundo dele vai muito além (e é muito mais intenso) do que vemos na tela do computador

O divinense Márcio, para aonde fosse, estava sempre acompanhado do seu baralho. Seja para ir à escola, ao médico ou passear na rua, o baralho estava a todo momento acolhido em suas mãos. Na hora de brincar com o carrinho, não fazia o brinquedo andar pela casa como se fosse uma grande estrada. Ele focava sua atenção nas rodinhas o tempo todo. Chegava em casa e já verificava com o olhar se o boneco estava, exatamente, na mesma posição que deixou. Nada podia estar um centímetro fora do lugar. Esse era o ritual não-funcional dele.

Karla Coelho é mãe de quatro filhos, dois deles são o Márcio e a Isis. A vida dela foi entrelaçada ao autismo há quase 20 anos. Ele teve dois filhos portadores do Transtorno do Espectro Autista (TEA). A partir daí, nem precisa dizer que a sua trajetória mudou completamente, né? Na época do nascimento da Isis, a divinense não tinha nem o 9° ano. Foi justamente a descoberta do TEA em ambos que a incentivou a retomar os estudos e partir pra área de educação em busca de mudar o mundo dos seus pequenos.

“A Isis tinha meses quando voltei a estudar. Fiz um supletivo e passei para biologia na UEMG. Eu já estava grávida do Márcio e minha filha já dava sinais de que tinha algo diferente com ela, aí resolvi trancar a faculdade. Bati muito a cabeça com relação à escola porque eu não concordava com a forma como eles estavam tratando meus filhos. Foi aí que resolvi fazer pedagogia pra saber o que eu poderia conseguir de melhor pra eles no colégio. Fiz o curso Floortime, em Itaperuna, relacionado ao autismo e não parei mais de me especializar”, Karla

NA ESCOLA

A professora de apoio Márcia Leal sabe bem como é o dia a dia do aluno autista na escola. A carangolense fez pós junto com a Karla e ambas se dedicam à educação direcionada a esses estudantes que precisam de uma atenção especial. “Trabalho com uma criança de 13 anos que tem TEA grave. Desde que o João Pedro entrou aqui, com nove anos, a gente tem conseguido ver, nitidamente, os benefícios que a escola regular fez para ele. Eu, enquanto mediadora, coloco na linguagem dele a questão pedagógica que o professor está dando na aula”, conta Márcia. Depois dos estímulos dados diariamente pela professora de apoio, hoje, ele se comunica mesmo não falando.

“Ele não fala AINDA, mas quando não quer fazer aula de educação física, ele aponta para o portão da quadra. Digo para ele avisar para a professora que vai embora. O jeito dele de dizer isso é dando um beijo nela e acenando um tchau”, Márcia

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Márcia Leal e seu aluno João Pedro

Os barulhos, tumultos, abraços, beijos, toques sem permissão, quebra de rotina ou de rituais, não fazerem o que eles querem… Tudo isso são detalhes pequenos para nós, mas para os atípicos, como os divinenses Márcio (TEA moderado) e Isis (TEA leve), essas coisas podem desestabilizá-los. Se um amiguinho não divide um biscoito, alguns autistas já podem se tornar mais agressivos. Muitas vezes as crianças não entendem essa forma dos portadores de TEA se comunicarem, mas o aluno da Márcia estava há quatro anos na mesma turma, então os colegas da escola eram mais compreensivos com as reações, às vezes abruptas, do amigo atípico.

“Pego muito o funcional com ele, que nada mais é do que ensinar o que é fazer uma fila na hora da merenda, é ele se orientar quando o sinal toca que é hora do recreio, a questão de ir embora, que ele já está danadinho sabendo a hora, enfim… Ele tem essas orientações, essas rotinas, que ajuda a regulá-lo bastante. Qualquer coisa que sai do normal, eu o perco. Como? Ele fica uma criança agressiva e eu ajudo ele a se regular”, Márcia

DIAGNÓSTICO

Só quem pode assinar embaixo e dar o diagnóstico de que os pequenos têm TEA é o neurologista. Isso só vai ser feito quando o pequeno tiver por volta de três anos porque antes disso ele ainda pode evoluir bastante seus sentidos. Mas é bom ressaltar que desde o início os pais podem ficar mais atentos aos primeiros alertas de que o bebê pode ser autista.

“Até um ano e pouco, a Isis desenvolveu normalmente. Uma criança quieta, que não exigia atenção, que dormia sozinha… Eu dizia que a Isis veio para me deixar curtir ser mãe e depois vi que isso não era uma coisa boa. Então criança quieta demais, que não chora, que não gosta de dormir no colo, que é muito tranquila, é bom estar atenta. Bebê não é tranquilo, exige atenção, gente junto. Quando amamenta e o pequeno não olha no olho, não interage com a mãe, não tem uma reciprocidade emocional também são situações que devem ser observadas. São poucos pontos até um ano de idade. Depois há uma tríade de comprometimentos, que é nas áreas de interação social, da comunicação e das estereotipias”, Karla

É importante perceber os possíveis sinais de que o bebê pode ter TEA como prevenção. “Nem toda criança que apresenta um ou mais sintomas tem o autismo. Em algumas situações, isso pode ser trabalhado e a criança mudar o diagnóstico até os três, quatro anos”, explica a divinense. Márcio e Isis fazem terapia desde 2006 e isso foi muito relevante no processo deles. Já foram diagnosticados com TEA grave e hoje Márcio é moderado e Isis, leve. Há casos que ver esses detalhes podem ajudar o seu filho a evoluir e, assim, conseguir se socializar e se comunicar melhor.

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Thaís, Thayane, Karla, Márcio e Isis durante a viagem de família para o sul do país

EM CASA

Depois dos nascimentos da Isis e do Márcio, Karla não apenas estudou para se especializar para desenvolver didáticas mais adequadas para eles, mas também criou uma página no facebook, a Sentir Autismo. Ela se desnuda como pessoa, como profissional e, principalmente, como mãe nessa página. Conta seus receios, suas emoções ao ver que os filhos são mais corajosos do que ela imaginava e os tropeços do dia a dia. Tudo isso narrado de forma leve, educativa e até com um certo tom de humor. Mas essa batalha até chegar aqui, em 2018, não seria a mesma sem a ajuda das irmãs mais velhas dos pequenos, Thayane e Thaís.

“As irmãs foram fundamentais no desenvolvimento deles. Thayane e Thaís brincavam com eles, faziam de conta, ensinaram os dois a fazerem de conta, então acho que talvez eu sozinha não tivesse dado conta da evolução deles”, Karla

Este ano, a família da Karla foi pro Beto Carreiro. Ela ficou receosa, afinal é um parque com um bombardeio de sons, luzes e cores. No final, já respirando alivia, a divinense viu que tudo deu certo. Os filhos curtiram do início ao fim e Márcio se aventurou até na montanha-russa. É ou não é pra ter orgulho dessas crianças que mostram todo dia que o impossível não existe? ^_^

 

Imagens: arquivo pessoal da Márcia Leal e da Karla Coelho

 

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