Outubro rosa: a batalha de uma carangolense vencedora

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Sem histórico familiar de câncer de mama, a carangolense tomou um susto com a notícia

Era uma noite comum de outono. Cristine Magalhães, 35, estava sentada no sofá de casa vendo TV quando sentiu um caroço no peito. Achou que pudesse ser uma íngua, nada de mais, mostrou para a mãe, que achou estar embaixo demais para ser uma íngua, e saiu para passear com o, na época, noivo dela. Mas ficou encucada com isso o resto do fim de semana.

“Logo na segunda já liguei pro meu ginecologista, mas só tinha vaga dali a vinte dias. Todos os dias, do nada, eu sentia latejando o caroço. Como sou enfermeira, a gente estuda que câncer não dói. Então eu estava com uma certa tranquilidade já que estava doendo. Quando chegou na consulta, o médico falou que não devia ser nada porque não tenho histórico familiar da doença, um estilo de vida saudável e tudo mais. Ele fez a punção e até o resultado ficar pronto ele disse pra eu ir fazendo mamografia e ultrassom”, Cristine

Na mamografia, o nódulo nem sequer apareceu, mesmo sendo do tamanho de uma meia azeitona, segundo a Cris. Já no ultrassom deu que o caso deveria ser investigado mais a fundo com uma biópsia. Mesmo assim, médico e familiares estavam confiantes de que não seria nada grave. Mais uma vez Cristine respirava aliviada. Até que o telefone toca. É do consultório médico.

“Eu estava indo buscar, lá em Muriaé, as caixas que eu ia presentear os padrinhos do casamento. Foi quando a secretária me ligou dizendo que o exame estava pronto e que o médico queria conversar comigo. Na hora, me desestabilizei. Ainda bem que eu estava com meu pai no carro porque eu acho que fiquei tão aérea que se eu estivesse sozinha não sei o que poderia ter acontecido”, Cris

Assim que chegaram em Carangola, a enfermeira pediu pro pai a deixar no consultório. Aí veio a notícia: era câncer de mama. Ela aguentou o baque do resultado sozinha. Pelo menos até chegar em casa e desabar nos braços da mãe. A partir daí foram exames atrás de exames. Em um deles, descobriram que era um tumor maligno de grande aceleração de crescimento e que, apesar de terem retirado o nódulo e não ter ocorrido a metástase, teria que iniciar um tratamento de quimio e radioterapia. A poucos meses do casamento, ela teve que cancelar tudo e enfrentar a maior batalha da vida dela.

AUTOESTIMA É TUDO

Foi difícil lidar com um tratamento tão pesado. Cris demorou a aceitar que esse era o melhor caminho para ela se livrar de vez da doença. Com o apoio da família e do, hoje, marido, ela ergueu a cabeça e foi ganhar mais uma luta. “Não entrava na minha cabeça por que eu deveria passar por um tratamento agressivo. Não foi fácil. Chorei horrores quando tive essa conversa de fazer quimio. Eu sempre fui vaidosa, então ficar careca estava sendo uma tortura pra mim. Falava com o Lucas (marido): ‘você não vai continuar comigo, vai me largar. Você não gosta de mulher com cabelo curto, como é que vai me olhar careca?’”, indagava ela.

“Voltamos do médico praticamente mudos. Estava eu, meus pais e o Lucas em choque. Chegando em casa chorei muito. Mas no outro dia já acordei com a força que só Deus pode dar. Falei pra mim mesma: ‘bom, se tenho que enfrentar, vamos começar a guerra hoje’”, Cristine

Foi complicado ver o cabelo caindo, se tornando cada dia mais ralo, mas ela teve quem a apoiasse nesse obstáculo da vida. Uma prima e a cunhada cortaram grandes madeixas para ajudar na prótese que Cristine já estava organizando para usar quando ficasse careca. Passar as mãos nos fios virou rotina para checar se estava caindo. O receio de lavar o cabelo e vê-lo todo no chão era grande, era assustador. Duas semanas depois de ter iniciado a quimio, ela se deparou com o ralo do banheiro cheio de cabelo. Foi um baque. Aí que decidiu: era o momento de raspar a cabeça. Chamou o cabeleireiro em casa e se sentiu na pele da personagem da atriz Carolina Dieckmann na novela “Laços de Família”. O choro foi inevitável.

“Me olhei no espelho careca e me senti nua. Mas, no outro dia, eu sempre me renovava. Eu não queria me sentir doente. A gente não sabe o dia de amanhã, então vamos viver, né?! Todo mundo que me viu assim pela primeira vez me elogiava, dizia que eu estava linda do mesmo jeito, que eu não devia me preocupar com isso, etc. Tinha hora que eu também gostava de mim daquele jeito”, Cris

Depois de raspar a cabeça, a enfermeira subiu no salto, se maquiou, colocou um argolão e foi curtir a noite ao lado do marido. Ela se amou de todas as maneiras. Aproveitou a prótese, a careca, o cabelo curtinho e, agora, dez meses depois do fim da quimio, ela adere a um corte (ou falta de, porque ela ainda não passou a tesoura nos fios) acima do ombro. Ainda garante que apesar de ter usado durante muito tempo cabelo longo, depois dessa batalha vencida ela aprendeu a se amar assim, mais leve, com menos cabelo. Em setembro, ela subiu no altar com o coque clássico que sonhou a vida toda e gritou para o mundo nas redes sociais: “perdi os cabelos, mas não perdi a cabeça. Cabelo cresce”.

 

Fotos: arquivo pessoal e Gabriel Habibi

 

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