Dia da Consciência Negra: existe racismo em Carangola?

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Se você não respondeu mentalmente a essa pergunta, então precisa ler esta matéria

Como Caetano Veloso consagrou em seu repertório: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Tanto a personal trainer Marcela Ribeiro, 29, quanto a bióloga Rosemara Silva, 30, carregam na sua negritude a dor do racismo e a delícia que é se redescobrir. São duas mulheres fortes, guerreiras e reconhecidas na sociedade. Seja pelo carisma, pelo profissionalismo, pela beleza, pelas boas atitudes ou pela força que, em cidade pequena, existe ter um sobrenome de peso.

“Talvez em Carangola o racismo seja velado, sim, pelo fato de todo mundo se conhecer e saber de onde você vem”, Marcela

Marcela tem pais conhecidos em toda a região pelo que representam como profissionais. Ela cresceu estudando em boas escolas, onde a maioria era branca, onde alguns estudantes sorriam na sua frente e vomitavam preconceito nas suas costas. Até a adolescência ela quase não enxergava o racismo, pelo menos não com ela. Teve que sair da cidade, amadurecer e ver um mundo que vive no armário, escondendo suas intolerâncias. “Já sofri preconceitos dos mais sutis, como um olhar torto, ao pesado dizendo ‘e ainda por cima é negra’, como se isso fosse diminutivo”, relembra a personal. O mundo dela é diferente do da Rose, que já vê claramente o racismo travestido de opinião.

“Existem muitas pessoas ainda que são pobres de espírito, que são racistas e não aceitam a beleza negra ou por conta do preconceito ou por conta da inveja mesmo”, Rose

A bióloga tem origem humilde. O pai foi pedreiro a vida inteira. A mãe, doméstica. Rose estudou em escola pública durante todo o seu percurso escolar. Correu atrás, batalhou e entrou na faculdade quando a UEMG ainda era FAVALE. Ela dava conta do próprio sustento para se especializar como estudante.

No fundo, as histórias da Rose e da Marcela se misturam apesar de serem tão distintas. Vinda de uma família toda negra, a avô materna da personal trainer trabalhou como doméstica até criar suas duas filhas e se aposentar. O pai começou sua carreira como mestre de obras antes de investir em sua própria empresa de engenharia. Mesmo assim ambas sofreram os preconceitos por serem negras, mesmo que com uma tenha sido mais escrachado do que com a outra. Infelizmente, o dinheiro ainda é sinal de respeito na nossa sociedade. Se ambas fossem tratadas igualmente, talvez (só talvez) um dia conseguíssemos tirar esse racismo do armário e transformá-lo em amor ao próximo.

A REVOLUÇÃO É CRESPA!

“Grito bem alto, sim, qual foi o idiota que concluiu que meu cabelo é ruim?
Qual foi o otário equivocado que decidiu estar errado o meu cabelo enrolado?
Ruim pra quê, ruim pra quem?
Infeliz do povo que não sabe de onde vem”, Elisa Lucinda

Os versos da poetisa Elisa Lucinda já foram citados na Folha da terra, em uma matéria sobre o empoderamento do cabelo afro (leia aqui). Para você que leu até aqui e vai parar porque acha que tudo isso é mimimi, então faça um favor a si mesmo e leia até o final, ao menos tente entender a dor do outro, ok?

Rose e Marcela se sucumbiram às imposições de beleza que a sociedade criou. Alisaram o cabelo durante toda a adolescência e até parte da juventude. Por quê? Elas ainda não estavam prontas para irem contra a esse ideal de beleza (loira, olhos claros, branca e de cabelo liso). Muitas ainda não estão. Mas agora elas têm voz, têm pais que dizem que são lindas ao natural, têm homens e mulheres ressaltando as suas individualidades, as suas personalidades, afinal, são os detalhes que as diferenciam nessa Era da Chapinha.

“Na minha época de adolescente as coisas não eram tão fáceis como são hoje. O preconceito era grande. Ter o cabelo afro naquela época não era fácil, uma por conta do cuidado e outro por falta de espírito de algumas pessoas. Mas, hoje, com grande satisfação e orgulho deixo o meu cabelo natural porque simplesmente eu amo!”, Rose

“Infelizmente dez anos atrás não vivíamos nesse empoderamento do cabelo afro, do black, do naturalzão. E no meu caso também tá muito ligado à fase da adolescência, que todas têm cabelão e liso. O meu cabelo não crescia e muito menos ficava liso (rsrs). Então o jeito pra ‘tentar’ se enquadrar foi o alisamento e o mega hair. Hoje em dia, o natural está muito forte”, Marcela

Infelizmente, ainda há muita resistência das pessoas a ver beleza nas raízes negras. Isso é fato! Numa pesquisa feita pelo Perception Institute, eles perceberam que 78% (SETENTA E OITOOOO) das pessoas institivamente prefere cabelos lisos. Como diz o slogan da campanha que divulgou essa e outras pesquisas sobre esse assunto: “mude os fatos. Não mude o afro”.

Marcela e Rose hoje são cacheadas ao natural e se amam assim, do jeitinho que são. Elas são herdeiras de uma luta que já dura mais de 500 anos só no Brasil. Elas carregam na pele as dores e as delícias de serem negras. Com muito orgulho.

Fotos: arquivo pessoal da Rose Silva e da Marcela Ribeiro

 

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Um comentário

  1. Lendo me lembrei da minha infância, que me lembre ninguém nunca criticou o meu cabelo ou cor. Minha mãe sempre fez questão de mostrar e nos deixar sempre com o cabelo cacheado a mostra, na escola Melo Viana eu e minha irmã éramos elogiadas sempre pelo cabelo sempre arrumado e cheiroso ( rsrs). Mas não era assim sempre com outras, acho que nos negros devemos sim ir a luta do espaço que é nosso e que alguns idiotas tendem a criticar, nada mais lindo que um negro com seu cabelo natural jogando ao vento onde passa isso gera raiva em algumas pessoas, hoje mesmo falei isso com minha irmã que na escola onde trabalha sofre de uma maneira na pele o racismo pelo cabelo. Alunos tiram do seu cabelo e ela disse que lá só há 2 professoras negras, no mundo de hoje com tanta tecnologia ainda a esse obstáculo à viver.. Mas nos negrinhas como já me chamaram estamos de pé e prontas para enfrentar esses seres inúteis que existem !

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