O mundo de Dhara Botelho: quando ela se sente parte do seu mundo

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É intensidade, animação, mas também muita solidão. Vamos incluí-los nos nossos rolês?

Regina Botelho parece estar em constante calma, sempre a postos para entrar no mundo da sua filha, Dhara Botelho, que possui Síndrome de Down. Num bate-papo, a mãe conta as dificuldades que passaram juntas, os sonhos e o universo da Dhara, que é um pouco diferente do nosso, mas é repleto de amor pra dar. Infelizmente, nem todo mundo chega despido de preconceito. Já se foi um longo caminho, 28 anos pra ser mais exata, mas a batalha continua por mais inclusão.

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Aos 30 anos de idade, as dúvidas eram muitas. Será que ela vai se adequar ao colégio? Será que o colégio vai ampará-la? Será que os colegas de turma vão abraçá-la? Com o tempo, as respostas foram aquele alívio na alma. Mãe, sabe como é, né?! Emana amor. “Tivemos muita gente boa ajudando nas escolas. Diante de tanta gente bacana que apareceu, vimos poucas pessoas agindo com preconceito com a Dhara. Ela foi amparada por todo o universo, o que não quer dizer que não houve dificuldades”, relata. A alfabetização foi o impulso que ela precisava pra entrar no mundo tecnológico. Hoje, é ela quem ajuda os pais quando eles não entendem alguma coisa no computador. Além disso, essa socialização inicial foi ótima para a filha criar laços fora da família. Até então a solidão ainda não fazia morada (tinha a sua turma do jazz, da escola, do clube…), mas uma hora a vida chamou os primos e os amigos para crescerem, e muita vezes esse chamado os distanciou fisicamente das pessoas com quem ela criou suas primeiras histórias, daquelas que a gente ama reviver.

“Os primeiros amigos foram feitos na escola. A Dhara funciona assim: quem passou pela vida dela, não passou, ficou. Pra ela as pessoas marcam muito! Todos têm um lugar no coração dela. Isso é muito bacana no jeito dela”, Regina

Dhara passou por alguns colégios em Carangola e em São João Del Rey, mas decidiu parar de estudar no 2º ano do ensino médio. A descoberta da diabetes sabotou um pouco a sede de conhecimento da jovem. Há algum tempo ela já não dava conta de acompanhar a turma e a aproximação com a fase do vestibular deixou tudo mais atribulado pra ela. Embora a escola tenha ficado pra trás, ela ainda sonha fazer faculdade. Assim que questionada sobre o assunto, ela já tinha a resposta na ponta da língua. “Quero fazer faculdade de música”, conta. Essa paixão pela música vem de dois dos hobbies dela, que são fazer playlists no Spotify e dançar jazz.

“Dança muito bem! Falamos pra ela que é algo que pode fazer pra ganhar o dinheiro dela. Abre um espaço e vai dar aula de dança. É um jeito também de conviver com as pessoas. Mas ela diz que quer fazer outras coisas”, Regina

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NÃO DEIXE NINGUÉM PRA TRÁS

Esse é o lema do Dia Internacional da Síndrome de Down (21 de março): não deixar ninguém pra trás e é isso que a mamãe coruja vem fazendo desde os seus 30 anos. É de nos deixar com os olhos brilhando e aquele sorriso tímido, que enche nosso coração, quando ouvimos Regina falar sobre a filha. A delicadeza nas palavras, o tom baixo, a entonação cheia de carinho… Tudo isso foi fruto de um longo caminho percorrido pela mãe, o pai e a Dhara. Os tropeços fizeram parte, mas os frutos foram colhidos com glória.

“Naquela época ainda não era lei as escolas terem que aceitar alunos com Síndrome de Down. Antes de colocá-la no Garatuja, fui lá conversar com o responsável. Sabia que poderia ouvir um não, mas ele nos amparou muito. No tempo dela, a inclusão estava nascendo ainda. Precisávamos realmente ter coragem pra abrir portas, pra ser pioneiras. Existiu, sim, dificuldade, mas foi pequena diante das portas abertas que encontramos”, Regina

A socialização no colégio desde menos de dois anos foi muito importante pra ela, mas isso não impediu os pais de se sentirem frágeis diante de algumas situações que partem o coração de qualquer pessoa que tenha um. “Já teve vezes de eu chegar na escola, na hora do recreio, e ver a Dhara brincando sozinha enquanto o grupo de amiguinhas de turma brincavam juntas”, relembra a mãe. A Dhara não conseguia acompanhar as meninas, embora quisesse estar com elas. É uma fase delicada, que precisa de muito apoio dos profissionais na escola, dos pais dos alunos e de projetos de inclusão. Infelizmente, nem sempre é com isso que se deparam. “O preconceito existe. Muitas vezes é velado, mas existe nas escolas, na família…”, reflete Regina, que criou forças desde o início para lidar com todo esse turbilhão de informações e sentimentos.

“O sonho dela era ter alguém que apertasse o interfone e dissesse ‘Dhara, desce aí. Vamos tomar um sorvete?’ Isso é o que alegra o coração dela. Já é uma mulher, então ela não dá conta de ficar comigo e com o Fernando (pai). Ela quer ter o espaço dela, quer ter amigos que a chamem pra ir na exposição. Tem só um ou dois que vêm aqui pra chamá-la pra sair, pra passar um tempo com ela”, Regina

Muita gente apareceu durante esse percurso de 28 anos, uma delas foi a prima e amiga Marianna Tona, que chamou a Dhara pra ser madrinha do seu casamento no fim do ano passado. “Além de ser minha prima, foi minha colega de sala na infância. Nos encontramos sempre, vamos à exposição juntas, saímos pra almoçar e reviramos fotos antigas. A Dhara é uma pessoa linda e incrível, preza muito a amizade e tem um carinho imenso pelos amigos. Não teria como não chamar (para ser madrinha), ela foi a pessoa que mais vibrou com esse casamento”, se emociona Mari.

“Vejo pessoas que se esforçam pra estar sempre com a Dhara. Digo ‘esforçam’ no sentido positivo porque o mundo dela é diferente. Tem que tirar os olhos desse nosso mundo corrido e de muitas outras coisas para conseguir ver a Dhara, pra sentar e conversar no ritmo dela”, explica Regina. Esses laços são muito importantes pra jovem, que vê em cada ação um gesto de carinho muito grande. Como qualquer outra pessoa, ela também quer ter a atenção dos amigos, quer badalar com a galera, quer conversar sobre música ou sobre qualquer outro assunto que envolva o seu amplo universo, afinal, como ela disse uma vez (surpreendendo a mãe), ela é do mundo!

Fotos: reprodução/ Instagram Regina Botelho e arquivo pessoal da Dhara Botelho

 

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5 comentários

  1. 🌻💗 GRATIDÃO Mayra… sem palavras… vc nos surpreendeu pela competência com q “alinhavou” todos os detalhes da nossa entrevista. Só mesmo te AGRADECER e te PARABENIZAR!!! Bju gde. 💗🌻

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